Antes de medir: defina os marcos
Quase todo indicador de recrutamento depende de datas. Se cada pessoa da equipe considera um momento diferente como “abertura da vaga”, o mesmo número muda de valor conforme quem calcula. Escreva as definições e use as mesmas sempre:
| Marco | Definição sugerida |
|---|---|
| Abertura da vaga | Data em que a vaga foi aprovada para contratação, não a da publicação. |
| Candidatura | Data em que a pessoa se candidatou ou foi abordada pela equipe. |
| Aceite | Data em que a pessoa aceitou a proposta. |
| Início | Primeiro dia de trabalho. |
| Contratação do mês | Aceite ocorrido dentro do mês, independentemente de quando a vaga abriu. |
Duas regras práticas: para tempos, use a mediana, porque uma vaga que demorou muito distorce a média; e separe vagas muito diferentes, como operacionais e de liderança, em vez de misturar tudo num número só.
Velocidade: tempo de contratação e tempo de preenchimento
Tempo de preenchimento (time to fill)
Fórmuladata do aceite − data de abertura da vaga, em dias corridos
Como medir: por vaga fechada no mês; mostre a mediana e separe por tipo de vaga.
O que move: aprovação interna demorada, descrição de vaga pouco clara, poucas fontes de candidatos e agenda de entrevistas difícil de fechar.
Tempo de contratação (time to hire)
Fórmuladata do aceite − data da candidatura da pessoa contratada
Como medir: só para quem foi contratado; é o tempo que o candidato passou no processo.
O que move: intervalo entre etapas, tempo para marcar entrevistas e demora na decisão do gestor. Se o tempo de preenchimento é longo e o de contratação é curto, o gargalo está antes da candidatura: atração ou aprovação da vaga.
Custo por contratação
Custo por contratação (cost per hire)
Fórmula(custos externos + custos internos do período) ÷ contratações do período
Como medir: externos são anúncios, sites de emprego, testes, consultoria e software; internos, as horas da equipe e dos gestores no processo, multiplicadas por um custo-hora. Feche o mês e divida pelas contratações.
O que move: dependência de fontes pagas, retrabalho com vagas reabertas e entrevistas com quem não deveria ter passado da triagem.
Custo baixo não é sinônimo de bom processo. Uma vaga barata que precisa ser reaberta em dois meses custa mais. Leia este indicador junto com a retenção.
Fonte da contratação
Fonte da contratação (source of hire)
Fórmulacontratações vindas de cada fonte ÷ total de contratações
Como medir: registre a origem na candidatura (portal de vagas, indicação, site de emprego, rede social, banco de talentos) e conte as contratações, não só as candidaturas. Uma fonte com muitas candidaturas e nenhuma contratação gera trabalho, não resultado.
O que move: onde a vaga é divulgada, programa de indicação, banco de talentos ativo e a clareza do anúncio em cada canal.
Conversão por etapa do funil
Taxa de conversão por etapa
Fórmulapessoas que passaram para a etapa seguinte ÷ pessoas que entraram na etapa
Como medir: por vaga ou por grupo de vagas parecidas, para cada passagem: candidatura → triagem → entrevista → proposta → aceite.
O que move: critérios de triagem, alinhamento com o gestor e desistências.
A conversão mostra onde o funil perde gente, e cada perda tem uma leitura diferente:
- Pouca gente passa da triagem: o anúncio atrai o perfil errado. Revise a descrição de vaga.
- Muitos passam da triagem e poucos da entrevista: os critérios de triagem e o que o gestor espera não estão alinhados (veja triagem de currículos).
- Muitas desistências entre etapas: processo lento ou candidato sem resposta.
Taxa de aceite de proposta
Taxa de aceite (offer acceptance rate)
Fórmulapropostas aceitas ÷ propostas feitas
Como medir: no mês, contando cada proposta formal uma vez. Registre o motivo de cada recusa: salário, outra proposta, modelo de trabalho, demora.
O que move: salário e condições informados desde o anúncio, velocidade entre a última entrevista e a proposta e expectativas alinhadas durante o processo. Recusa por salário no fim do processo costuma indicar que a faixa não foi conversada antes.
Qualidade da contratação e retenção em 90 dias
Retenção em 90 dias
Fórmulacontratados de um período que seguem na empresa 90 dias depois ÷ contratados daquele período
Como medir: por coorte: em novembro, olhe quem começou em agosto. Separe desligamentos pedidos pela pessoa dos decididos pela empresa.
O que move: expectativa criada no processo (a vaga real é a anunciada?), integração dos primeiros dias, liderança direta e o acerto da seleção.
Qualidade da contratação não tem fórmula única. Além da retenção, use a avaliação do gestor ao fim do período de experiência, com a mesma escala para todos. Com o tempo, compare essas avaliações com as notas da entrevista por competências: se não andam juntas, as perguntas ou a rubrica precisam de ajuste.
Experiência do candidato: tempo de resposta
Tempo até a primeira resposta
Fórmuladata da primeira resposta da empresa − data da candidatura; e o percentual de candidaturas com resposta dentro do prazo que você definiu
Como medir: para todas as candidaturas, inclusive as de quem não segue. Defina um prazo (por exemplo, cinco dias úteis) e meça quantas o cumprem.
O que move: avisos automáticos de recebimento e de mudança de etapa, triagem feita em dia e mensagens prontas para quem não segue. Pesquisas curtas depois do processo também ajudam, desde que sejam opcionais e o candidato saiba como as respostas serão usadas.
Satisfação do gestor
Satisfação do gestor com o processo
Fórmulamédia das respostas a uma pergunta fixa, de 1 a 5, enviada ao gestor ao fechar a vaga
Como medir: use sempre as mesmas duas ou três perguntas, como “os candidatos apresentados tinham o perfil da vaga?” e “o processo teve o ritmo que você precisava?”, e um campo aberto.
O que move: alinhamento antes da abertura da vaga, shortlist mais curta e mais bem justificada e comunicação durante o processo.
Como montar um painel mensal simples
Um painel útil cabe numa página e é atualizado sempre no mesmo dia do mês. Um caminho:
- 1
Escolha de cinco a oito indicadores. Comece pelos que você já consegue medir com confiança.
- 2
Escreva a definição de cada um. Fórmula, marcos e fonte do dado, numa aba da própria planilha.
- 3
Mostre o mês e a tendência. O valor do mês ao lado dos três anteriores diz mais do que um número isolado.
- 4
Separe por tipo de vaga quando fizer diferença. Operacional, administrativa, técnica e liderança têm ritmos diferentes.
- 5
Anote o contexto. Uma linha explicando o que mudou: férias coletivas, vaga difícil, nova fonte.
- 6
Termine com uma decisão. O que vai ser testado no mês seguinte, e qual indicador deve mostrar o efeito.
Para indicadores sobre o público de candidatos, como diversidade, use dados agregados e informados de forma voluntária, com finalidade clara. Veja os cuidados em LGPD no recrutamento.
Exemplo ilustrativo de um mês
Os números abaixo são inventados, só para mostrar o cálculo. Não são referência de mercado nem meta. Imagine uma empresa que fechou oito contratações no mês:
| Indicador | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
| Tempo de preenchimento | Mediana das 8 vagas fechadas | 24 dias |
| Tempo de contratação | Mediana das 8 pessoas contratadas | 15 dias |
| Custo por contratação | (R$ 2.400 externos + 60 h × R$ 50 internos) ÷ 8 | R$ 675 |
| Conversão candidatura → entrevista | 24 entrevistados ÷ 400 candidaturas | 6% |
| Aceite de proposta | 8 aceites ÷ 10 propostas | 80% |
| Fonte | Portal 4, indicação 2, sites de emprego 2 | 50% / 25% / 25% |
| Retenção em 90 dias | 7 de 9 contratados três meses antes seguem na empresa | 78% |
| Resposta em até 5 dias úteis | 340 de 400 candidaturas | 85% |
| Satisfação do gestor | Média de 6 respostas | 4,2 de 5 |
Exemplo ilustrativoA leitura desse mês: as duas propostas recusadas citaram salário, então a faixa passa a ser conversada já na triagem. A retenção caiu porque dois contratados de agosto saíram por conta própria nas primeiras semanas; a equipe vai conversar com os gestores sobre a integração. No mês seguinte, o painel mostra se a taxa de aceite e a retenção mudaram.
Armadilhas comuns
- Comparar com “médias de mercado”. Cada fonte mede de um jeito, com empresas e vagas diferentes. Use a sua própria série histórica como referência.
- Otimizar um indicador sozinho. Cortar etapas reduz o tempo e pode derrubar a retenção. Olhe velocidade, custo e qualidade juntos.
- Média em vez de mediana para tempos, com uma vaga atípica puxando o número.
- Mudar a definição no meio do caminho sem avisar, o que quebra a comparação com os meses anteriores.
- Medir o que ninguém usa. Se um indicador não levou a nenhuma decisão em três meses, tire do painel.
- Amostras pequenas. Com duas contratações no mês, uma recusa vira 50%. Junte trimestres quando o volume for baixo.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre tempo de contratação e tempo de preenchimento?
O tempo de preenchimento (time to fill) conta da abertura da vaga até o aceite da proposta e mede o processo todo. O tempo de contratação (time to hire) conta da candidatura da pessoa contratada até o aceite e mede quanto tempo o candidato ficou no processo.
Qual é o tempo de contratação ideal?
Não existe um número que sirva para toda vaga. Uma vaga operacional com muitas candidaturas e uma vaga de liderança têm ritmos muito diferentes. Separe por tipo de vaga, acompanhe a mediana mês a mês e use a sua própria tendência como referência.
Quais indicadores de recrutamento acompanhar primeiro?
Comece pelos que dá para medir com os dados que você já tem: tempo de preenchimento, conversão por etapa do funil, fonte da contratação e taxa de aceite de proposta. Depois inclua custo por contratação, retenção em 90 dias e satisfação do gestor.
Como medir a qualidade da contratação?
Não há um número único. Combinações comuns são a permanência após 90 dias, a avaliação do gestor ao fim da experiência e o cumprimento das metas iniciais da função. Defina antes quais vai usar e aplique a mesma régua a todas as contratações.
